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800 anos de luz: um retiro para reaprender a concluir a vida em Deus

ifnsbc2023
18 de jul.
6 min de leitura

Entre os dias 2 e 8 de julho de 2026, as Irmãs Franciscanas de Nossa Senhora do Bom Conselho realizaram, em Bom Conselho (PE), seu Retiro Espiritual Anual. Inspirado pelo tema “800 anos de luz: Francisco, o Testamento e a arte de concluir bem a vida”, o retiro conduziu as participantes a uma profunda experiência de oração, silêncio e escuta da Palavra, em sintonia com as celebrações dos 800 anos da Páscoa do Pai Seráfico São Francisco de Assis.


Inspirado pelo tema “800 anos de luz: Francisco, o Testamento e a arte de concluir bem a vida”, o retiro nos conduziu a uma profunda peregrinação interior.


Concluir bem a vida não significa apenas preparar-se para o último instante. Significa aprender, todos os dias, a viver de modo que cada escolha seja iluminada pelo amor primeiro que nos chamou.


O retiro nos recordou aquilo que a tradição da Igreja sempre preservou: afastar-se, por alguns dias, das muitas ocupações não é fuga da realidade, mas caminho para reencontrar seu verdadeiro sentido. Como Jesus que tantas vezes subia ao monte para rezar antes das grandes decisões, fomos convidadas ao silêncio, à escuta da Palavra e ao encontro sincero com Deus, onde toda vocação reencontra sua fonte.


Ao longo da semana, a Palavra de Deus dialogou continuamente com os escritos franciscanos, revelando como o Evangelho ganha rosto concreto na experiência de Francisco de Assis.


Na primeira reflexão, a parábola do Filho Pródigo encontrou-se com o célebre episódio do beijo ao leproso. Ambos apontavam para a mesma direção: o amor sempre inaugura um novo começo. O pai corre ao encontro do filho antes mesmo que ele termine seu pedido de perdão; Francisco desce do cavalo para abraçar justamente aquilo que mais o repugnava. A conversão nasce quando permitimos que o amor seja maior que nossos medos, preconceitos e seguranças.


A segunda reflexão nos conduziu à conhecida narrativa da Perfeita Alegria. Em tempos marcados por opiniões polarizadas, relações frágeis e busca constante por reconhecimento, São Francisco nos recorda que a verdadeira alegria não depende do sucesso, dos dons ou dos resultados alcançados. Ela floresce na humildade de quem permanece fiel mesmo quando encontra incompreensão, rejeição ou sofrimento. A alegria perfeita não elimina a cruz; revela Cristo presente nela.


Já a terceira reflexão aproximou a casa de Marta e Maria do encontro de Francisco com o lobo de Gúbio. À primeira vista, parecem episódios distintos. No entanto, ambos perguntavam silenciosamente: o que realmente merece ocupar o centro da nossa vida? Entre tantas tarefas, expectativas e urgências, fomos chamadas a reconhecer que somente uma coisa é verdadeiramente necessária: permanecer junto ao Senhor para, a partir d’Ele, reorganizar todas as demais prioridades.


A dinâmica proposta nessa etapa do retiro era simples e profundamente simbólica: imaginar uma folha repleta de compromissos e, pouco a pouco, apagar cada item até restar apenas um. Qual permaneceria? A resposta não precisava ser escrita. Bastava deixá-la ecoar no coração.


Na última reflexão, contemplamos a cura do paralítico descido pelo telhado e o ideal do “frade perfeito” descrito por Francisco. A perfeição franciscana não nasce da ausência de fragilidades, mas da comunhão dos dons. Nenhuma irmã reúne sozinha todas as virtudes; é a fraternidade que se torna o lugar onde Deus completa aquilo que em cada uma permanece incompleto. Somos chamadas a reconhecer nossas limitações sem perder a confiança na graça que continua agindo em nós.


Todo o itinerário do retiro convergia para o Testamento de São Francisco. Nele, já próximo do fim da vida, Francisco não apresenta grandes teorias nem faz um balanço de conquistas. Recorda, com simplicidade, onde tudo começou: “O Senhor me deu irmãos.” Também recorda o encontro com os leprosos, quando aquilo que antes lhe parecia amargo transformou-se em doçura de alma e de corpo.


Talvez essa seja uma das maiores lições deixadas por Francisco após oitocentos anos: concluir bem a vida é permanecer fiel ao primeiro amor. É conservar vivo o encantamento do chamado, mesmo depois de tantos caminhos percorridos. É permitir que Deus continue transformando nossos medos em encontros, nossas resistências em fraternidade e nossas fragilidades em espaço para Sua graça.


Ao final desses dias de recolhimento, regressamos às nossas fraternidades e missões levando mais do que anotações ou resoluções pessoais. Levamos um coração novamente orientado para o essencial.


O retiro prosseguiu conduzindo-nos ao Monte Alverne, lugar onde Francisco recebeu as sagradas Chagas. Contemplar esse acontecimento, oitocentos anos depois, significou muito mais do que recordar um episódio extraordinário da vida do Santo de Assis. Fomos convidadas a compreender que as chagas não são sinal de derrota, mas expressão de uma existência inteiramente moldada pelo amor de Cristo. Aquele que passou a vida procurando seguir os passos do Senhor termina sua peregrinação trazendo no próprio corpo os sinais daquele amor que transforma, purifica e configura.


Essa contemplação nos levou também a olhar para as nossas próprias feridas. Em um tempo em que tantas dores permanecem escondidas sob o ritmo acelerado da vida, o retiro recordou que nenhuma fragilidade está fora do alcance da graça de Deus. As chagas de Cristo, impressas em Francisco e acolhidas por toda a tradição franciscana como sinal de perfeita configuração ao Crucificado, continuam anunciando que o amor de Deus não elimina a cruz, mas faz dela caminho de redenção. A verdadeira cura nasce quando permitimos que o Senhor toque aquilo que ainda permanece ferido em nós.


Foi profundamente significativo concluir esse itinerário espiritual diante da certeza proclamada pelo profeta Isaías: “Por suas chagas fomos curados.” A cura que Deus realiza alcança toda a pessoa. Ela restaura a esperança, reconcilia o coração, fortalece a vocação e devolve sentido à missão. Assim, voltamos às nossas comunidades não apenas desejando ser pessoas curadas, mas chamadas a nos tornar presença de cura para aqueles que Deus confiar ao nosso caminho.


O retiro abriu ainda espaço para uma reflexão sobre os desafios atuais da Vida Religiosa Consagrada. O texto inspirador Vida religiosa: coragem de renascer ampliou nosso olhar para além das realidades internas das fraternidades, convidando-nos a contemplar o momento histórico que vivemos. Em meio às rápidas transformações culturais, às mudanças sociais e às novas perguntas que surgem em nosso tempo, fomos provocadas a redescobrir que a fidelidade ao carisma não se confunde com imobilismo. Permanecer fiéis é deixar que o Espírito Santo continue conduzindo a vida consagrada pelos caminhos da renovação.


Essa perspectiva dialogou profundamente com o tema central do retiro. Concluir bem a vida, como fez Francisco, exige também a coragem de renascer continuamente. Não se trata de abandonar a própria identidade, mas de retornar ao Evangelho com renovada liberdade, permitindo que Deus faça novas todas as coisas. Como Nicodemos, somos continuamente convidadas a nascer do Alto para reconhecer os sinais discretos da ação divina que despontam, mesmo quando o horizonte parece envolto por incertezas.


As reflexões recordaram ainda que a vida religiosa continua sendo chamada a despertar esperança no mundo. Mais do que responder às mudanças apenas com novas estruturas ou métodos, somos convidadas a renovar o coração, fortalecer a fraternidade, cultivar relações verdadeiras e testemunhar, pela simplicidade da vida, que o Evangelho permanece atual. Como tantas vezes recorda o Papa Francisco, a Igreja cresce pela atração do testemunho. É essa vida reconciliada, alegre e profundamente enraizada em Cristo que continua falando ao coração das pessoas.


Ao concluir esses dias de retiro, tornou-se ainda mais evidente que o Testamento de São Francisco não pertence apenas ao passado. Ele permanece como uma palavra dirigida também a nós. Seu convite é simples e exigente: conservar vivo o primeiro amor, permanecer no Evangelho, amar os irmãos, deixar-se configurar a Cristo Pobre e Crucificado e caminhar sempre com a esperança de quem acredita que Deus continua fazendo nascer esperança depois de cada dificuldade.


Que a memória dos 800 anos do Testamento de São Francisco continue iluminando nossa caminhada e fortalecendo em cada irmã o desejo de viver o Evangelho com simplicidade, alegria e fidelidade até o fim.


Porque, como nos ensina o Pobrezinho de Assis, a mais bela maneira de concluir a vida é continuar deixando que ela pertença inteiramente ao Senhor.


Por: Irmã Leidiana Bezerra de Lima

Religiosa professa do Instituto das Irmãs Franciscanas de Nossa Senhora do Bom Conselho (IIFNSBC). É graduada em Pedagogia, Mestra em Educação e possui especializações em Espiritualidade Franciscana, Gestão de Pessoas, Psicologia Organizacional e Coordenação Pedagógica. Dedica-se à missão educativa e à formação humana e espiritual, inspirada pelo carisma franciscano.


 
 
 

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